engolir é preciso

tempo passa

faço o que já deveria ter

minhas mãos lentas no frio

só pra escrever

 

faço um chá

na tentativa de melhorar

junto dois chás que não gosto

mas tenho tentado engolir

como o desgosto da circunstância

 

queria

botar um som

ler poesia

 

não pode não

pode é

reação republicana

movimento tenentista

imaginação sociológica

mudança sensorial da dupla revolução

movimento reformista de 1870

 

tudo isso junto

não vale meu chá aguado

de erva doce e camomila

queima-tempo, move-mundo.

tudo meio jogado, meio bagunçado. é assim que andam as coisas aqui. perdi o celular, chorei desesperadamente cantando em português no momento que deveria ser alto, que deveria ser o ponto de glória da noite. acho que tomo todos os cuidados, que estou sempre atenta aos detalhes, que estou sempre cuidando da beleza das coisas. talvez a essa pouca altura eu ainda esteja muito perdida entre os detalhes, me apego às sutilezas. é pelos breves e longos gestos de delicadeza que fico; aos poucos e calma em meu desespero, permaneço. li o começo da mensagem da amiga, amada, “é por motivos óbvios que estou triste […]”. não terminei de ler e ainda não entrei em contato. nesse entra e sai da melancolia entre os que me cercam e a mim mesma, entre um rio de lágrimas que escorrem em mim e diante dos meus olhos, espero que o tempo se faça maior, que haja fresta nas janelas trancadas, que os buracos façam respirar melhor, circular o que não pode ficar parado. falando em movimento, a falta de amor era mentira, continua sobrando esse sentimento tão mal valorizado, tão vulgarizado, que vende meias, perfumes e desodorantes, mas deveria servir somente a si mesmo. a isso que fazem com ele quero dar outros nomes. trabalho pra uma vida. por amor ao amor, por amar o amor de quem me ama, por amar o amor que faz presença em mim, eu o defendo e o quero plenamente, desejante, complicado, suave. nesse mundo insano, torna-se doloroso. quero que quem possa sentir amor, possa realizar seu amor, possa amar o amor sentido, sem impedimentos, que a entrega seja permitida pela segurança que o ser amado haveria de dar e que se possa amar a quem despertar amor, sejam quantos e quais forem. eis mais uma vez a encruzilhada em que me encontro. em junho de dois mil e dezessete, na latitude -23.507445 e longitude -46.6717412, a 730 metros do nível do mar, não se pode amar sexuadamente a mais de um indivíduo. a amante, amadora, amada, deve decidir entre seus quereres o mais querido, o que mais a quer, o que mais vale, como se fosse possível fazer esse tipo de comparação – com as nem tão raras exceções de pessoas que não valem nem a comparação, se fazem aquém por princípio. me recuso, porém. sou incapaz de optar por pedaços do que me integra tal como estou; seja qual for a escolha, estarei mutilada. mutilada não por perder uma parte de qualquer substância que me componha, mas por perder parte da vida que eu vivo, da vida que me faz. assisti o filme da moça que se doa, que ganha na loteria e gasta tudo com quem acha que o que ela faz é amaldiçoado. mal a agradeceram, quase não elogiaram, apesar daquela experiência ter sido talvez a mais nobre e prazerosa de suas pobres vidinhas. os cristãos se curvam diante do poder de deus, mas não se rendem tão facilmente à bondade, à gentileza, à delicadeza da generosidade. aceitar favor é sempre uma ofensa, inadmissível. ela serviu suas próprias criações, as receitas mais nobres de seu lugar no tempo de uma nobreza que já não existia mais, morreu com as pessoas que a semeavam, para o bem ou para o mal. deus há de abençoar a famosa esquina da boulevard des italiens com a rue de marivaux, mas os pobres cristãos não.

nada de malas prontas, nada de cento e – pra que tantos? – cabides, nada de despedidas sem prazo de volta, nada de dor no peito antes de quase conseguir dormir. veja, só temos essa vez pra desperdiçar com dureza e falta de chance ao que não carrega ódio nem rancor. quero aprender a temperar bem e preciso de gente que mereça provar. se isso não é um bom motivo, não sei o que pode ser. é por querer proporcionar os sabores, mais do que saboreá-los, que se pode permanecer; por si ninguém permanece, passa pelos outros como fosse algo que, somente ele, interessa. ter interesse é princípio, a permanência é o que vem depois, e só depois. não quero passar, não quero ser de interesse, não desejo o que de mim se espera. quero, pelo tempero, pela memória, pela imagem do amor, transpor a força do tempo e, sempre ao lado, permanecer.

Nada de triste existe que não se esqueça
alguém insiste e fala ao coração
tudo de triste existe e não se esquece
alguém insiste e fere no coração
nada de novo existe nesse planeta
que não se fale aqui na mesa de bar
e aquela briga que aquela fome de bola
e aquele tango e aquela dama da noite
e aquela mancha e a fala oculta
que no fundo do quintal morreu
morri a cada dia dos dias que vivi

she looks insane when she smiles [dê play na música antes de ler]

ela parecia louca quando sorria.

tinha a cabeça raspada

uma bunda enorme

piercing de argola na sobrancelha

menor que a espessura da sobrancelha

os olhos pequenos e bem escuros

sempre apertados

ou de maconha ou de sono

– se é que não são a mesma coisa –

ela era noventista

usava câmera analógica

tinha várias tatuagens, algumas feitas por ela mesma

não tinha meio termo

ou era old school clássico

ou era traço tosco desenho infantil

andava quase sempre com quase nada nos peitos

as calças eram moletons cintilantes

mas o negoço mesmo dela era a boca

pequena, muito desenhada

labios grossos e quase sempre inchados

quase sempre com um talho

quase sempre sangrando

“beijar essa moça deve ter gosto de sangue”

e o melhor era quando

os lábios se abriam

e finalmente

apareciam os dentes

bem pequenos

quase todos voltados pra dentro

formando um v pra dentro entre os dois da frente

era hipnotizante

a primeira vez que vi não consegui dar atenção a mais nada durante as 12 horas seguintes

rude, pixadora, maloqueira

“she keeps it pumpin’ straight to my heart”