o complicado

nada mais é

do que uma mistura não padronizada

não esperada

de simples opostos

a uma velocidade que não é a da razão.

 

a coisa é simples, meu bem:

antes certamente era amor

depois já não o foi

Hoje ainda o é.

 

Em outro caso, o simples é mais definitivo.

Quis amar por bondade

por amor ao amor

amei por esforço

esforço destrói o amor, que é espontâneo

o amor que era mais vontade de fazer o bem

se desgastou

me corroeu

me consumiu

e a ca bou.

 

quase 6

um convite inesperado a uma alegria que eu já nem me lembrava mais

“a gente racha,

eu quero que você vá”

tudo o que eu precisava ouvir

veio de uma boca que eu nunca cheguei muito perto

nunca tive interesse

e de outra que nem tanto

 

as pessoas fazem bem e mal umas às outras como sequer podem imaginar,

sem ter uma intenção do tamanho da ação

a grandeza da ação está em sua concretude;

ela se realiza quando atinge o outro.

 

 

[dos rascunhos dos meses passados]

O que hoje é mentira também já foi verdade.

a essa hora, com sono, e quis saber de você. não me impressionei, não tirei nada de bom disso, mais uma vez. hoje acordei triste antes do acordar oficial, acordei do sono não dormido durante a madrugada, da intermitência entre não estar consciente e saber que não está dormindo. uma sensação de merda. acordei chorando, de lágrimas que eu não consigo conter, mas contenho o esforço de chorar expressivamente. estive triste pra caralho mesmo. com a minha vida, com a vida, com o meu passado que cada vez mais encaro, encaro cada vez mais de perto, fugir não é mais opção. o episódio não podia ter acontecido, não naquele meu estado, não nesse estado de não mais nós. houve e ainda há eu (não tive tanta certeza hoje mais cedo). eu te chamei, não nós. já não há mais nós faz algum tempo, mas isso é um pouco mais duro, um pouco mais difícil de engolir. pela primeira vez posso dizer que acho que já não amo mais o grande amor, o amor sincero, honesto, querido, vivido, tido, plenamente, dado e recebido. foi sutil para quem acha que tara é sinônimo de amor, de bem querer. eu não preciso de mais nenhuma prova de que tara só pode ser obsessão, nada mais saudável que isso. não quero ninguém tarado por mim. disso só me restou nojo, asco, não querer nem o mais simples contato. e não mais tive. e falo dos casos comuns, homens como quaisquer uns, gente fina, boa conversa, boas intenções. porém, uma baba nojenta que vertia sem me poupar de qualquer escatologia em nome de algum prazer que eu com certeza não tive. me desculpe, você que lê, de não ser poupade de qualquer escatologia; isso é uma confissão, não meço muito, talvez não seja bonito, muito provavelmente não será revisado, talvez nem relido; não poupo muito, preciso destilar. não o amo mais. tentei contar, tentei ligar. ocupado duas vezes. não retornou. às vezes é besteira minha querer informar um longo amor que já não mais o é. deve ser. tenho tido uma náusea, não tenho comido como deveria, minha não-rotina não colabora, não tenho me hidratado como deveria. vem uma dorzinha de cabeça, um mal estar. estar no meio de tudo que não está resolvido não é nada que possa ser bom. o processo nele mesmo, para o sábio, é prazeroso, disse o montaigne. entendo, senti até um pouco disso, mas talvez o prazer só conheça as condições ideais, não são exatamente limpas, não são exatamente éticas, não são exatamente quando o outro também quer. mas não é a este prazer que montaigne se referia, exatamente. um dos meus problemas também é esse: a inconformidade com o tempo dos que me cercam. o tempo presente mesmo, nada sublime, tenho horror a qualquer possibilidade de afetação, há muito tempo. não acordo e tampouco durmo nos horários mais populares, desejo quando o outro não pode, cedo quando já não tenho muito mais de mim o que dar.

 

[dos rascunhos já velhos que a gente quase joga fora sem nenhum motivo]